Que a economia anda devagar, quase parando, não é novidade. E para cadeia produtiva da cachaça não é diferente, atingida pelo cenário de pouca confiança do consumidor. E as dificuldades chegam num momento importante para o setor, que vê os volumes de comercialização total em queda já há nove anos, ao mesmo tempo em que o mercado de cachaças premium vinha mantendo um avanço seguro, o que significa que o devoto está cada vez mais em busca de qualidade.

Pois, partindo dessa premissa, senhores, devo dizer que o maior evento de cachaças do país – a Expocachaça –, que aconteceu no feriadão, em Belo Horizonte – deixou o blogueiro impressionado.  Atrair 35 mil pessoas em quatro dias de exposição é um grande feito. E reunir mais de 400 rótulos de cachaça sob o mesmo teto não é pouca coisa.  Foi uma prova de resiliência do setor. E nem falei ainda que havia uma enxurrada – a palavra não é retórica, não inclui a menor dose de exagero – de cachaças excelentes disponíveis para a degustação dos devotos.

Mas, claro, o ajuste era perceptível.  Na primeira Expocachaça a que o blogueiro compareceu, em 2007, havia mais de 700 rótulos de cachaças, alguns dos quais hoje se chamam saudade. A taxa de mortalidade no setor atinge mormente os que confundem a produção de cachaças a uma espécie de hobby para os momentos de intervalo de suas atividades profisssionais. Esses chegam a produzir bebidas de qualidade, mas não se prepararam para manter todas as etapas da tarefa de um produtor funcionando de forma profissional e permanente.

No entanto, há novidades, boas notícias, novos produtos e nenhum abatimento por parte dos heroicos produtores do setor mais tributado (83%) da economia brasileira.

Por exemplo: a empresa Engenho Buriti apresentou um belo stand – sem os excessos voluntaristas comuns nas marcas emergentes – em que reinava a Famosinha, a perfumosa cachaça envelhecida em umburana premiada no ano passado como a melhor do Concurso Mundial de Bruxelas. A Famosinha está de garrafa nova – mas a antiga também continua no mercado –, preparando sua primeira exportação para os EUA e a empresa vivem um momento de alta acima de 100% em seus negócios nos últimos seis meses.

Mais adiante, a Bem me quer, de Pitangui (MG), apresentava uma cachaça em que o bálsamo e o carvalho se combinavam com raríssima harmonia, em bebida desenvolvida pelo master blender Armando Del Bianco. Seu produtor, José Otávio, também reportava crescimento nas vendas, o que contrastava com as informações sobre um recuo médio de 30% em um ano por parte dos produtores com quem o blogueiro conversou.

A Cipó da Serra e a Clarinha de Minas também foram lançadas na exposição, assim como a 1000Montes e a Spiral – as duas primeiras de um casal, ela, arquiteta, ele, cirurgião plástico; a segunda de dois jovens empreendedores paulistas. O interessante é que a Cipó, de sabor extremamente suave, busca, sobretudo, o público feminino, enquanto a Spiral, perfeita para drinks, e a 1000Montes estão de olho nos jovens. São novas fronteiras a serem conquistadas pela Cachaça.

Cachaças nordestinas querendo ganhar mercado no Sudeste, como a Escorrega e a Caraçuipe, de Alagoas, e a deliciosa Sanhaçu, de Pernambuco, também mostram a vitalidade do setor.

Duas boas notícias foram divulgadas durante o evento, ambas vindas de iniciativas mineiras e que deveriam servir de exemplo: a redução da alíquota de ICMS da cachaça, de 18% para 3%, num reconhecimento do papel estratégico da cachaça para o estado, e a descentralização da fiscalização do setor no território mineiro, que passa do Ministério da Agricultura (Mapa) para o Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), órgão estadual. Falaremos mais sobre isso em outro post, já que esse se alonga.

De resto, é preciso dizer que a organização da Expocachaça estava, mais uma vez, impecável, com a presença também das cervejarias mineiras – como a Krug e a Backer – e do tradicional feijão tropeiro completando essa grande festa do destilado nacional brasileiro. Ano que vem, o blog estará de volta. Até porque BH, com seus torresminhos de barriga no Barbazul, café com queijo na Bitaca do Leste e fígado com jiló no Mercado Central, acaricia a alma amineirada deste devoto.